“Passei fome na infância e agora não consigo emagrecer”

Conheça a história de Marlene (nome fictício), e sua luta contra as imposições estéticas que nos obrigam a emagrecer

08 de janeiro de 2014 • Por Mariana, em Depoimentos Reais, Destaques


Eis aqui mais uma história real enviada por uma leitora “assídua e fiel”, segundo a própria. Mas antes, relembraremos nossa meta quando pedimos para que nos enviem suas passagens pela vida no tocante às dietas e às tentativas de emagrecer.

Nosso objetivo é propiciar que essas histórias, que podem ser a de qualquer pessoa, saiam do seio de quem as vive, e possa servir de exemplo, motivação ou alento para outras pessoas. Da mesma forma, esperamos que quem tenha algo a dizer que o diga, para tornar um pouco mais fácil a vida de quem aceita se expor em seu sofrimento desta maneira.

Para fins de manter a privacidade da pessoa a salvo, nomes próprios são trocados. Vamos chamar a autora do depoimento abaixo de Marlene.

 

Minha história não tem nada de muito relevante.

Sou do norte do país, do Acre. Passei fome a maior parte de minha infância, só soube o que é comer a partir dos dez anos, já aqui em Belo Horizonte. Hoje tenho 37 anos, e confesso que comida ainda é minha prioridade.

Meus irmãos e eu não temos um perfil de pessoas gordas. Eles todos já passaram dos 40, e ao observá-los percebi um aumento de peso em todos nessa faixa de idade. Comigo parece que não vai ser diferente.

Comecei a ganhar peso há dois anos. Sempre trabalhei muito, e muito embora comida seja minha prioridade, só comia quando a fome apertava para valer. No caso de meus irmãos e meu também, a comida é mais importante, no sentido de que, podemos economizar com tudo, menos com comida. Sempre que recebemos alguém, a comida é com fartura. Em minha casa, pode faltar qualquer coisa, menos comida.

Como hábito de minha terra, não jantamos. Quando casei levei comigo este hábito, meu marido acabou se habituando também, e depois da chegada da minha filha, ela também já entrou neste mesmo ritmo.

Apesar de sempre ter sido muito magra, sempre me preocupei com esta questão. Meu marido (somos casados já há 15 anos), logo depois do casamento, já me pediu que cuidasse para não engordar; citando suas palavras: “o único pecado que a mulher não pode cometer é o de engordar, pois não tem volta”.

Na minha gravidez, me pesava toda semana, e não passei fome, porque não consigo fazer isso espontaneamente depois do que passei na infância, mas como na gravidez a fome parecer não ter fim, comia verduras, legumes e frutas, às vezes até no café da manhã, e cortei tudo que poderia me engordar: massas, refrigerantes, sorvetes, tudo.

Resultado: engordei os nove quilos recomendado pelo médico, mas logo após o parto fiquei muito abaixo do peso, cheguei a ter complicações durante os dois meses subsequentes ao parto. Tive que dar uma caprichada na alimentação e voltei a ficar como era antes de ser mãe.

Como já estava habituada a comer mais frutas e legumes, vira e mexe, ficava abaixo do peso de novo, e tinha que caprichar de novo para voltar aos 62 quilos. Me acostumei a comer quando o estômago urrava de fome, e com isso, já era frequente ficar abaixo do peso, e lutar para voltar.

Nos últimos dois anos, saí de uma empresa, onde a correria era muita, para outra onde a calmaria é tudo. Tínhamos uma cozinheira na empresa, que fazia o almoço, a princípio não comia lá, mas depois de um tempo, provei a comida dela a gostei. A partir daí, passei a comer lá todos os dias, acabamos ficando próximas e ela fazia tudo o que queria comer, e recuperei o prazer em comer.

Como tudo era muito bom, passei a comer mais que o era o meu costume, e ganhei três quilos gradativamente no último ano. Passei a cuidar mais depois disso, mas não consigo me livrar destes 3 quilos. Cheguei a fazer caminhada, mas continuo trabalhando e o corre-corre de cuidar de trabalho, casa e filho foi muito, acabei parando.

Hoje eu olho tudo o que como, agora perdi novamente o prazer de comer, pois como com peso na consciência, com medo de engordar. Isso virou um pesadelo, não consigo desligar mais, vivo na frente do espelho conferindo as gordurinhas, e ao mesmo tempo, não consigo ficar sem comer, pois quando meu estômago reclama, é inevitável ceder. Tento comer apenas o que acredito me engordar menos, vivo lendo sobre o assunto quase que obsessivamente.

Quase virei alcoólatra, quando descobri que o álcool diminui o apetite. Passei a beber todos os dias vodka com vinho; fiquei de porre várias vezes em casa, vomitei, tinha crises de amnésia, meu marido tinha que ficar me vigiando quando dormia, para não sair de casa, sem saber o que estava fazendo, ou para onde ia; devido a reclamações dele, passei a beber escondido, o que foi pior, pois daí minha filha foi que presenciou a mãe em situações trágicas, e com 9 anos tentava me por juízo na cabeça .Por ela, parei.

Hoje, sofro quando o estômago doí de fome, e sofro quando como qualquer coisa. Embora pareça pouco, não aceito estes quilos a mais, não aumentou, mas também não diminui com nada que faça, e agora tenho que conviver com a insatisfação comigo mesma, não aceito o que vejo no espelho e não sei mais o que fazer. Já pensei em comprar remédio para emagrecer proibido, mas pelo que li, influencia muito no humor e saúde, e não quero impor mais nada desagradável à minha filha, embora a tentação persista.

carregando…

Foi por essa razão, que acabei encontrando você, numa das minhas buscas desesperadas por ajuda. Acho que é isso, é muito difícil falar de mim, e desse assunto mais ainda. Tenho vergonha de assumir que preciso de ajuda, somente assim, sem ver a pessoa é possível.

Marlene, amiga, sua história é muito forte.

Olha, meu perfil é bastante diferente do seu, mas numa coisa nós combinamos: a comida tem um valor emocional para nós muito maior do que meramente nutricional.

De verdade, amiga, eu acho que você deveria procurar uma psicóloga (sugiro uma mulher porque eu me sinto melhor falando sobre minhas coisas com alguém que tem, pelo menos, os mesmos processos biológicos que eu), porque eu percebo muita culpa na sua mensagem.

Você não está gorda, pode ter certeza que esses três quilinhos a mais até te deixam mais gostosa.

Mas você precisa encontrar essa verdade em si mesma, não adianta eu, Mariana, tentar te convencer.

Eu sei que por um filho a gente é capaz de qualquer sacrifício, e imagino o quanto você deve estar angustiada.

Mas uma coisa eu tenho para te dizer: quando o maridão te pediu para não engordar, ele não estava falando de três quilos no decorrer de muitos anos, e sim de 30kg, 40kg, como muitas de nós engordamos.

E eu percebo que você é uma mulher grandiosa, que não mede esforços para cumprir os papeis de esposa, de mãe e de dona de casa (haja vista o cuidado que você externa, ao comentar sobre como gosta de tratar suas visitas). Se você virar uma alcoólatra ou dependente química vai fazer mal para essas pessoas que você ama, muito mais do que se aceitar que você tem o direito de ter três quilos a mais, que isso te deixa mais gostosa e mais lisinha. E se você estiver com o humor em dia, e o espírito tranquilo, teu marido não vai ter motivos para preocupações, e também vai ser muito mais feliz.

Mas, repito, o ideal é você procurar uma ajuda especializada, amiga, porque você já passou por todo o sofrimento que tinha de passar nessa vida, não precisa se auto-impor mais nenhum, viu?

E se o médico ou a psicóloga te recomendarem algum medicamento, aí você toma, sob acompanhamento do profissional responsável.

Agora, o que você não pode é tomar medicamento tarja preta por conta própria, porque o risco é grande, até mesmo de morrer.

Antes de finalizar: você diz “minha história não tem nada de muito relevante”, e em seguida revela que até os dez anos de idade você não teve sequer alimentação adequada. Se isso não é relevante na história de vida de uma pessoa, o que vem a ser relevante, afinal?

Talvez o seu perfil seja muito diferente do da maioria: eu mesma já emagreci mais de 25kg, e preciso emagrecer mais vinte e tantos; se precisasse emagrecer só 3kg eu estaria dando pulos de felicidade. Mas isso não diminui a legitimidade de seu sofrimento com o excesso, assim como não a faz melhor do que quem sofre de obesidade severa ou mórbida.

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1 comentário

  • maria • 31/05/2013

    que mulher louca, esta 3 kg a mais do peso ideal e está fazendo esta tempestade toda. acho que vc deve estar com a vida muito mansa , para poder dar tanta atenção a estes 3 kgs desse jeito . talvez se vc tivesse um problema de saúde sério para se preocupar , não estaria aí chorando á toa. Estou quase 30 kgs a mais do me peso normal e nem por isso estou arrancando os cabelos, estou sim querendo emagrecer, mas sabendo que tudo tem seu tempo e hora. quero perder peso sem me ficar punindo por tudo que coloco na boca. O que vc tem com certeza é um problema psicológico .

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